Blog › 22/04/2026

Amália Ruth Borges Schimidt

É com o coração sereno, mas profundamente tocado pela saudade, que dedico estas linhas à memória de nossa querida amiga e incansável colaboradora da Associação Thomas Merton, que fez sua Páscoa na tarde de 21 de abril de 2026. Este não é um registro formal de perdas, mas um testemunho pessoal de quem teve o privilégio de caminhar ao seu lado na semeadura do pensamento de Merton em solo brasileiro. Ao compartilhar estas lembranças, busco honrar não apenas a competência técnica que ela dedicou à nossa expansão, mas a sensibilidade espiritual e a entrega silenciosa que transformaram nosso trabalho conjunto em uma verdadeira missão de amizade e transcendência.

 

Laért, Amália Ruth, Cristóvão e Fátima

 

Falar de Amália Ruth não é tarefa para palavras apressadas… mas aqui me apresso para dizer o que a gratidão por seu trabalho e amizade me impelem a compartilhar. Quem a conheceu sabe que ela habitava um tempo diferente, um tempo de “assentamento”, como ela mesma dizia, onde a pressa do mundo virtual não podia atrapalhar profundidade do encontro. Olho para trás e vejo o quão bonita foi sua trajetória na Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton (SAFTM).

Tudo começou ali por 2012. Lembro-me do seu entusiasmo sóbrio ao reagir ao “novo visual” dos e-mails semanais que encaminhava as Reflexões de Thomas Merton. Ela tinha essa delicadeza: notar o esforço do outro. Mas não era uma observadora passiva. Quando anunciei o projeto dos “Grupos de Leitura Partilhada” em 2013, Amália não apenas aplaudiu; ela questionou, quis saber o “como”, o “por quem” e onde estavam os nomes e rostos por trás das ideias. Ela buscava a comunidade real, não apenas a estrutura.

Foi nesse período que ela aceitou o desafio de ser o braço da SAFTM em São Paulo. Ela se definia, com uma elegância discreta, como uma liaison officer. Mas nós sabíamos que ela era muito mais: era uma âncora. Enquanto eu trazia o ímpeto e a pressa da juventude, Amália oferecia a ‘paciência para se alongar’. Ela sabia que para ler Merton, e para viver a vida, era preciso deixar a poeira baixar.

O Centenário de Merton, em 2015, foi talvez o momento em que sua liderança brilhou com mais clareza. No Mosteiro de São Bento, em São Paulo, entre o Cardeal Odilo Scherer, Abade Dom Bernardo Bonowitz e dezenas de admiradores do monge americano, lá estava ela. Não sob holofotes, mas no empenho dos bastidores, garantindo que o Brasil desse o acolhimento e reconhecimento que a obra de Merton merecia. Ela se tornou esse ponto de convergência onde todos se sentiam em casa.

Nos anos seguintes a relação de Amália com a Sociedade amadureceu de uma forma bonita de se ver. Ela deixou de ser apenas a líder do Grupo de Leitura para se tornar a conselheira que, com um cuidado materno, protegia o espírito da SAFTM contra o esvaziamento. Sua amorosidade era concreta: um e-mail de incentivo, a indicação de leitura, ou simplesmente uma mensagem de afeto denotando seu “estou aqui”.

Ela construiu uma rede de amizades que mais parecia uma família unida. Ela não impunha sua visão; ela convidava para tomar café à mesa após cada reunião. E nessa mesa, aprendeu-se que autoridade vinha da coerência entre o que lia de Merton e o modo como tratava quem batia às portas do Grupo.

Sinto saudade das suas ponderações sobre o “timing” das coisas. Amália partiu, mas sua ternura e doçura no trato ficou impregnado na gente.

Fica a gratidão por ter caminhado ao lado de alguém que, como dizia o texto que ela tanto gostava, nasceu “livre por natureza, à imagem de Deus”, e escolheu transformar essa liberdade em serviço e amizade. Sua presença foi, e continua sendo, terra fértil.

 

Cristóvão Meneses

Associação Thomas Merton

 

com Irmã Ana, Valéria Wagner, Fernando Paiser e Verbena

Durante o Encontro Inter-religioso no Mosteiro de São Bento de SP, 18/03/2015

Leitura no Mosteiro da Virgem, em Petrópolis, em 10/12/2015

com Waldecy Gonçalves, Telva Barros e Laert

com Odilon Wagner

com Dom Alexandre de Andrade, OSB

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