Blog › 09/06/2021

Não somos donos da Verdade

A Verdade é um Caminho e uma Pessoa – e um Caminho e uma Pessoa devemos encontrar e seguir… O que diz o Evangelho? Seguir a Jesus. Eis o que é a vida espiritual e o caminho da perfeição”. (Thomas Merton, Diários, Vol. III, “A Busca pela Solidão”)

 

O mundo de hoje é plural. Pode parecer duro (Jo 6,60) ouvir que Jesus se autodenomina A Verdade. As sociedades são multiculturais. Ainda assim, quando abrimos o evangelho, deparamo-nos com esta palavra que faz estremecer: Eu Sou A Verdade. Todos os multiformes caminhos que levam a Deus, e portanto, à felicidade, passam por Jesus Cristo.

Só que a Verdade não é um livro. Não é um conjunto de normas e leis codificadas em um manual. Não é um sistema filosófico nem uma sabedoria ética. Não é a verdade como norma jurídica e moral (somente). Não é um conceito. Não é o contrário da mentira: é todo amor do mundo feito carne. A Verdade é uma pessoa. Uma pessoa divina que se fez homem.

Jesus é Verdade encarnada que assume a natureza humana, a Verdade caridosa que toca a realidade com as mãos, derrama óleo sobre as feridas e cura os homens; a Verdade com rosto e carne, que entra nos bares e prostíbulos, nas casas de jogos e coletorias de imposto, que arrasta os homens com sua Beleza.

Jesus é a Verdade que coroa a busca de todos os homens de todos os tempos. É aquele que honra a capacidade de Deus instaurada no coração humano.

Ele é Verdade misteriosa que escapa entre os dedos dos sábios, que não se deixa domesticar, diante da qual nos ajoelhamos com reverente desejo e júbilo maravilhado. É a Verdade que não deixa se aprisionar pelas mãos dos homens justamente porque é Deus. Santo Agostinho, abismado diante do mistério trinitário que se revela, mas não se deixa aprisionar pela razão, exclama: “Quando nos perguntam quem são estes três (Pai, Filho e Espírito Santo), temos que reconhecer a extrema indigência de nossa linguagem. Dizemos três pessoas para não guardar silêncio, não para dizer o que é a Trindade (“Da Trindade”).

E por mais que a Igreja, através de seu magistério, doutores e teólogos, venha, ao longo dos séculos, contemplando e aprofundando a compreensão da vida de Cristo, “só de forma muito pobre, chegamos a compreender a verdade que recebemos do Senhor. E, ainda com maior dificuldade, conseguimos expressá-la.”(Papa Francisco, Gaudete et exsultate). A linguagem doutrinal, mesmo a mais adequada, sempre exprime a Deus de modo deficiente.

Não somos donos da Verdade. A Verdade, que se dá inteira, e derrama sua plenitude no coração da Igreja, só pode ser “possuída” de maneira muito precária. E, sem a humildade, não há a mínima condição de tocar nem na borda do manto desta Verdade.

Somos mendigos de Deus, peregrinos do absoluto. Como o cego Bartimeu, que, à beira do caminho, envolto pelas sombras, expressou à Verdade que passava, o desejo profundo de seu coração: “Que eu veja!”

Sergio de Souza nasceu em Cantagalo, interior do Rio de Janeiro, de onde jamais saiu. É casado e pai de quatro filhos (um no céu). Desde cedo interessou-se por arte, cultura e religião. Conheceu os livros de Thomas Merton, que lhe mostraram que o cristianismo está muito além da sacristia: na cultura, nas artes e, sobretudo, no coração de cada homem. Publica textos na internet desde 2005. É criador do apostolado virtual O Camponês (site e fanpage no Facebook).

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