Blog › 04/04/2017

Tornar-se monge na sociedade secular de hoje

Dom Bernardo Bonowitz, OCSO

I. Introdução:
Uma Nova Paternidade – de João Batista para Jesus

O monge é sempre discípulo. Ele deseja tornar-se o herdeiro autêntico de um mestre, de viver e transmitir dignamente a santidade dos seus modelos. Ele vê no mestre a tradição viva e encarnada, e espera tornar-se o próximo elo desta tradição. Seus ombros ardem, por assim dizer, para receber o manto daquele que o formava. Quando monges leem que na hora da sua morte, Santo Antão,primeiro monge, mandou seu manto para Atanásio, todo mundo entende o que isto significa.

Os monges do século quarto, o século da explosão do fenômeno monástico, buscavam não somente pais contemporâneos, mas pais arquetípicos, patriarcas. Ocupados como estavam muitas horas por dia na leitura, meditação e proclamação pública dos textos bíblicos, sentiam a necessidade de descobrir na página sagrada os antepassados espirituais. Uma vez chegado o tempo de Cassiano (séc. 4) , a escolha foi feita.. O primeiro “monge”, o progenitor da raça monástica, ia ser Elias- Elias na beira do riacho Querith, alimentado pelo corvo, Elias no cume do monte Horeb, percebendo a voz de Deus como a brisa mansa que segue o tumulto de furacão, ventania e fogo. Junto como ele, como seu espelho neotestamentário, os monges escolheram a João Batista- não certamente, o neném das festas juninas de cachos loiros, acompanhado pelo cordeirinho, mas aquele que vivia escondido no deserto, que abriu a boca só para pregar a única coisa necessária: arrependimento. Misteriosamente, os monges não falavam muito a respeito de ser discípulos de Jesus, nem viam seu próprio rosto espiritual refletido na fisionomia de seguidores de Jesus como Pedro, Tiago e João. Isto não quer dizer de maneira alguma que os monges primitivos não adoravam a Jesus, não percebiam nele o princípio e o fim de tudo. Pode até ser que evitavam esta comparação por motivos de respeito: sabemos que a cristologia dos monges era uma cristologia chamada “alta”, isto é, que enfatiza a divindade de Jesus. Mesmo assim, esta “paternidade mais próxima” de Elias e João Batista necessariamente implica em certas consequências.

Porque Elias e João Batista, pelo menos como compreendidos pelos monges egípcios, eram ascetas. Sua austeridade manifestava a santidade do Deus inefável; suas austeridades formavam os graus da escada que levava à experiência do Deus inacessível. A Bíblia chama os dois de “terríveis”- título de admiração, de certo, e não de condenação. Sua fidelidade radical ao Deus transcendente os incendiava, e fazia com que eles queimassem a quem quer que seja que eles tocassem. Ninguém nunca imaginou bater um papo com nenhum dos dois.

Ora, o tema da palestra a mim pedido é “Ser monge na sociedade de hoje”. Eu interpreto este título da seguinte maneira: Como tornar-se monge, viver como monge, vindo da sociedade de hoje, e especificamente da sociedade atual brasileira? Por um lado, meus pobres cinco anos no país não me providenciam uma intuição muito aguda nesta questão. Por outro lado, tenho a vantagem de pessoalmente viver esta situação como um “desafio existencial”. Superior de uma comunidade monástica brasileira, para mim é questão de vida e de morte chegar a discernir a interação exigida entre a sociedade local contemporânea e a tradição milenar monástica, para chegar àquela síntese que a gente chama de ” inculturação”. Evidentemente, seria absolutamente ilícito falsificar as exigências de monasticismo para agradar aos “fregueses”, seria um tipo de morte. Igualmente, porém, seria morte cegar-me ao retrato vivo da sociedade brasileira jovem que eu contemplo em cada um de nossos vocacionados, sociedade que vive à uma imensa distância do Egito do século quatro.

Esta sociedade- aqueles que vêm desta sociedade e aspiram ser monges- precisam de outros pais que Elias e João Batista. Precisam realmente chamar Jesus de pai. Uma longa tradição patrística, iniciando-se na própria carta aos Hebreus, pensa em Jesus como o pai de seus seguidores, e esta tradição persiste e se manifesta até na regra monástica mais difundida, a Regra de São Bento. Vamos considerar brevemente a paternidade de Jesus para aplicá-la à formação monástica.

Para mim, é de grande interesse que o brado de João Batista, “Convertei-vos”- foi assumido por Jesus no começo de seu ministério. Lemos no Evangelho de Mateus que quando Jesus voltou da sua prova no deserto e ficou sabendo da prisão de João, iniciou a sua própria atividade de pregação, dizendo exatamente o que João dizia: “Convertei-vos, porque o reino de Deus está próximo.” Parece que Jesus mesmo ia tomar João por seu pai. Só que esta palavra de conversão, ou pelo menos, esta maneira de abordar o tema de conversão, terminou com este primeiro anúncio. Certamente não porque Jesus decidiu que a transformação da vida não o interessava mais. Transformação da vida, novidade da vida, constituía o núcleo da missão de Jesus. Contudo, em vez de exigi-la como João fazia, Jesus aprendeu que ele estava em condições de comunicá-la. Comunicava-a por meio de curas, de ensinamento (particularmente as parábolas), e sobretudo de perdão: “Teus pecados estão perdoados.”

Será que foi mais fácil para o pessoal de tempo de Jesus receber a vida renovada do que serem chamados a transformar-se? Acho que não: acho que a nova vida doía dentro daqueles que a aceitavam, que sentiam muitas saudades pela vida velha. Acho que finalmente Jesus não pedia menos do que João Batista. Mas ele criava, gerava naqueles que o seguiam a nova vida que ia depois pedir em prol do seu Reino. Mais ainda, ele implantava esta vida neles da sua própria vida . Cada vez que ele curava, uma força saia dele, e ele sentia a diminuição; cada vez vez que ele perdoava, assumia o pecado em si mesmo e sentia o aumento. Quer dizer, Jesus vivia todo o seu ministério eucaristicamente, infundindo nova vida nos outros, ou melhor, fazendo como que a transfusão de sua vida para os outros. E assim prostitutas, cobradores de impostos, leprosos e soldados chegaram a uma autodoação que João Batista nunca poderia ter provocado neles.

Podemos afirmar, então, que Jesus antecipava durante o seu ministério a intuição fundamental de Paulo na Carta aos Romanos: a humanidade não se salva através das chamadas da atenção. Uma humanidade desfigurada pelo pecado, alienada do Deus que fala nas profundezas da consciência, só se entristece e se endurece ao ouvir mais um apelo de ser diferente do que é- ou, em termos da teologia paulina, de enfrentar a Lei. Somente perdão gratuito, amor abundantemente derramado da própria fonte de amor- quer dizer, Graça,- tem a possibilidade de restaurar o homem. Garantia não tem nenhuma- é possível que o amor divino caia às vezes, muitas vezes até, num solo pedregoso, para morrer lá e apodrecer lá . Mesmo assim, é a única chance.

II. Os Jovens de Hoje

Os jovens que vêm buscando a vida monástica hoje em dia são pessoas admiráveis. Além de um grande idealismo que eles quase sempre trazem para o mosteiro, chegam com uma generosidade transbordante, um desejo de experimentar a Deus e uma esperança de viver numa comunhão de amor fraterno. Mas também chegam carregando um jugo pesado de sofrimento e de potencialidades ainda adormecidas ou despertadas apenas para tornar-se frustradas novamente. Vêm com grande frequência de situações de casa marcadas por todo tipo de abuso,negligência e fracasso. Vêm de lares pobres que não permitem o desenvolvimento normal de suas capacidades intelectuais, sociais, ou artísticas. Vêm de famílias onde não há livros ou instrumentos musicais. Vêm de ambientes onde experimentavam muito e sentiam muito, mas nunca aprendiam refletir sobre a própria experiência e ainda menos dialogar sobre ela. Vêm de pequenos mundos de criança onde as figuras de autoridade com as quais viviam- o professor, o patrão- nem sempre mostravam para eles a paciência e a bondade que faziam parte do seu cargo, que deveriam ter feito parte do seu repertório como adultos. E por tudo isso os jovens chegam ao mosteiro muito, muito inseguros.

Que sentido faria, portanto, de assumir o tom de um São João Batista com estes moços? Há um trabalho enorme a ser feito, sem dúvida, tanto por eles quanto por aqueles que têm o privilégio de atuar como mestre de noviços ou superior. Mas este trabalho começa muito quietamente, e por sua natureza progride muito devagar.

III . A Vida da Mente

Vamos olhar primeiro para um tema relativamente simples: a formação intelectual do novato. Existe toda uma tradição a ser assimilada, uma tradição riquíssima, alias: a Bíblia, os padres da Igreja, os padres primitivos monásticos, os padres cistercienses de nossa ordem (século XII), a teologia sistemática, sacramental, moral, etc. Houve um momento em que eu achava que a dificuldade da assimilação baseava-se na grande sofisticação e abrangência desta tradição. Agora sei que isto é o de menos. Em certas condições -disto sou testemunha repetidas vezes-, uma pessoa com pouca formação intelectual é totalmente capaz de entrar no mundo dos padres com compreensão, delicadeza e sim, prazer ( Ser testemunha deste encontro é ao meu ver uma das grandes alegrias da minha vida.). É trágico, sim, que o brasileiro comum recebe uma formação que pouco corresponde com sua inteligência inata. Mas dá para dar uma consertada nisso no mosteiro; afinal, temos livros e temos professores. Então, não é este o problema. O problema é que por falta da experiência ou por experiências negativas, o livro, a aula, a biblioteca, o professor incutem medo. O jovem não sabe que ele tem gosto de ler; ao contrário tem provas que não. Além disso, se ele lia antes, era sempre assunto de utilidade (ganhar o pão) ou diversão. O que fazer com uma leitura poética ou filosófica, cujo valor reside na própria beleza ou simplesmente numa aproximação maior da verdade?

Vemos assim que trata-se aqui de algo bastante básico e precioso: a descoberta do intelecto. Na minha última palestra para esta assembleia augusta (se assim se diz!), falei sobre a experiência exuberante do monge cair no mundo bíblico, de sonhar e depois acordar como um personagem a mais na história da salvação, tendo como companheiros Davi, Ester, Daniel, Pedro. Imaginem, portanto, o que pode significar acordar dentro da própria mente! É uma experiência mais cartesiana do que aquela de Descartes. Seu “Cogito, ergo sum”representava uma tentativa de estabelecer inabalavelmente sua existência por meio de sua consciência reflexiva. Aqui, porém, estas mesmas palavras exprimem um estalo, ao mesmo tempo de espanto e alegria. Penso, reflito, leio, entendo- e então sou, sou outro e mais do que jamais imaginava.

Será que uma tal descoberta vai acontecer somente pela leitura programada dos padres e dos teólogos? Duvido. Cabe ao formador pôr mais ingredientes na sopa, imitar a Jesus que sempre encontrava um vinho novo para botar nos odres novos. No caso ao qual estou me referindo, os odres seriam as mentes dos jovens. E o vinho novo? Um livro de poesias, um romance histórico de Alencar, uma sonata literária de Érico Veríssimo, as cebolas e pimentas de Machado. Inseparável desta tarefa é a de acompanhar o jovem em sua leitura. Além de comunicar ao noviço seu verdadeiro entusiasmo para as obras primas da espiritualidade monástica, reler com ele os livros que faziam a glória de sua própria juventude, sentir nova- mente o que sentia quando viajava sentado no lombo do burro ao lado de Dom Quixote, combatendo contra os moinhos de vento. O livro é o companheiro para a mente, certo ; mas a mente jovem tem necessidade de companheiro vivo para compartilhar com ele o seu alvoroço. E se o mestre questiona-se sobre este procedimento de dar espaço à leitura “profana” , que ele pense no escriba sábio do Evangelho que sabia tirar de seu armazém coisas velhas e novas. Minha experiência me ensina que uma preocupação excessiva neste assunto atrapalha mais do que protege. O jovem com tempo vai sentir-se atraido à beleza da literatura mística e patrística da Igreja, e seu contato com a literatura nacional e universal vai formar nele uma sensitividade ao enredo, caracterização, imagem e tema que só pode enriquecer sua lectio da Bíblia e dos escritos dos santos padres e madres.

IV . O Encontro com os Sentimentos

Tenho falado, então sobre a bem-aventurança de conhecer o mundo de livros. Segundo Orígenes, fundador da corrente da teologia mística cristã (século III), a suma bem-aventurança reside no conhecimento de si mesmo. Com isto ele quer afirmar que o “self” é o sacramento primordial de Deus que cada um de nós recebe. Simplesmente existindo, possuímos em nós mesmos uma reflexão perfeita da Divindade, em cuja imagem nós fomos feitos. Aquele que consegue ver fundo em si, vê além de si, vê o Deus trino cuja força e sabedoria formam a base do próprio ser. De um certo modo, cada homem e mulher tem direito de aplicar a si mesmo as palavras de Jesus, “Quem me vê, vê o Pai.”

Esta visão à qual o monge é chamado (junto com todos os outros seres humanos) não é automática. Necessita um longo processo paralelo ao despertar do intelecto, isto é, o despertar da afetividade. E aí encontramos mais um desafio particularmente puxado para os nossos jovens.

Aqueles jovens brasileiros que vêm ao mosteiro levando nas costas o peso de seu passado sofrido não tem muito interesse em viver o primeiro passo desta subida/descida para a descoberta da sua identidade radical de filho de Deus. Qual é este primeiro passo “impulável”?

A apropriação da própria história de dor, fracasso e insegurança, uma apropriação que faz se sentir à flor da pele. Sem falar em fuga, o qual seria um termo injusto, o jovem pobre, ou subdesenvolvido de uma ou outra maneira, ou negligenciado, olha com desejo para o mosteiro como um lugar de felicidade. Se ele quisesse ficar mergulhado em seus problemas, poderia ter

permanecido no mundo. Ele busca a Deus, isto sim, mas ainda não busca a cruz de Cristo. Aquele que já carrega a cruz da sua vida não precisa a cruz de outrem.

Em pouco tempo porém dá para ver que para a pessoa sofrida todo lugar mesmo o mosteiro é um lugar de sofrimento. De fato, para tal pessoa, só tem duas possibilidades: consciência- a qual por enquanto vai ser necessariamente dolorosa- e distração: a tentativa de não conhecer a si mesmo à medida que este conhecimento implica dor. O maior desafio de todos, portanto, nos primeiros anos da vida monástica é deixar-se experimentar conscientemente a carga da dor que a gente levava inconscientemente fora. E “experimentar” no sentido mais forte da palavra: receber de novo os socos, os traumas que a vida ia distribuindo, sentir de novo o choque, a decepção, a culpa, o ódio que eles causavam, e reconhecer uma vez por todas que estes acontecimentos nunca vão ser apagados do livro da vida. Por isto, eu costumo dizer a respeito da questão de “fuga para o mosteiro”: Pode ser que cada um de nós fugiu para o mosteiro. Que seja assim. Não importa. O importante é não fugir dentro do mosteiro, não fugir desta responsabilidade fundamentalmente humana de sentir.

É tempo de refletir novamente sobre o papel do mestre, do pai, como alguém que comunica vida, em memória de Jesus. Ele não pode simplesmente exigir do jovem vivendo este horror (realmente- este trecho da vida monástica é um horror) de aguentar, fazer pé firme, e quaisquer outros conselhos que constituem um afastamento afetivo do “assaltado”. Esta seria a fuga do mestre, e uma fuga imperdoável. O mestre tem que assistir, por meses…anos, à tribulação do seu filho. Tem que sentir algo da mesma raiva, chorar as mesmas lágrimas, sofrer a mesma incompreensão diante das injustiças e sujeiras jogadas em cima do jovem às vezes por muitos anos. E não pode neste momento assumir a linguagem da razão para dizer, “Mas sabe, rapaz, todo mundo passa por tais pedaços”. O problema com todos os amigos de Jó é que todos tinham doutorado em filosofia.Falavam demais. Faltava alguém que só ficava junto com Jó não tentando nem compreender nem comentar, alguém que superava seu medo de enfrentar em Jó a irracionalidade de sofrimento, alguém que sabia calar-se. No Novo Testamento encontramos este silêncio absolutamente necessário em Jesus ao túmulo de Lázaro, e em Maria, ao pé da cruz de Jesus. Como é que o mestre vai poder viver isto, talvez com cinco, seis, sete jovens à uma vez? Tem que ser ele mesmo um homem das dores. Vai precisar muito a consciência de suas própria dores como base de seu silêncio.

Ao mesmo tempo, o jovem não pode ficar vítima. Não foi por isso que Deus o trouxe para o mosteiro, simplesmente para chegar a medir o mar de sua dor. Ele tem vocação de ressuscitado, de passar por todos os quartos da sua interioridade e finalmente dar-se com o espelho na parede onde ele contempla-se a si mesmo como imagem de Deus. O novo mandamento de Jesus, pelo menos o mandamento mais frequentemente enunciado por ele, é “Levanta-te”. Este “levantamento” faz-se por uma experiência muito paradoxal, mas de valor ilimitado. É uma experiência de compreensão, de percepção espiritual tímida, através da qual o jovem começa a conhecer-se como radicalmente fundado e seguro em Deus. Se a gente pudesse imaginar o significado último da frase “são e salvo”, a gente teria uma ideia desta graça. Muitas vezes esta iluminação realiza-se num momento de oração depois de um período de grande tensão interior; outras vezes, parece que o jovem ouve seu nome pronunciado (por quem? Não sabe direito) carinhosamente- como se o seu nome fosse uma carícia. De qualquer modo que seja, representa o primeiro instante da verdadeira contemplação. Pela primeira vez, a pessoa humana reconhece – em si, unido a si, não diferente de si – Aquele de quem ele é o sacramento.

Não é o mestre que comunica esta intuição, que não é sugestão de fora, mas certeza brotando de dentro, aquela certeza que somente Deus é capaz de produzir. Mas o mestre tem a tarefa de confirmar o que o jovem vê passageiramente, num triz de densidade ontológica enorme. Se é possível falar de uma certeza fraca, é isto que o jovem conhece a respeito daquilo que viu ou ouviu no momento inesquecível de descobrir a própria identidade em Deus. O mestre tem que testemunhar por suas palavras, seu sorriso, o respeito com o qual ele presta atenção às reflexões do jovem, que este jovem é uma nova criatura em Deus, e que tudo aquilo que ele passou não o destruiu, não podia destruí-lo, porque em Deus ele é imortal. Pode ser que o próprio mestre esteja passando por uma época difícil. Neste caso, que ele liberte-se de si mesmo. Seu chamado agora é de ser testemunha da ressurreição. Segundo os evangelhos, de nada mais se duvida do que da realidade da ressurreição. Deste acontecimento inesperado e totalmente ímpar na vida do jovem o mestre tem que ser o pregador infatigável. “Vi o Senhor!…em ti.”

V. O Outro

Falamos sobre dois aspectos do mundo interior do jovem monge- a apropriação de sua herança humana como intelectual e como poeta, isto é, como alguém que pensa e alguém que sente. Falamos, então, sobre o ser humano em sua “solidão”, em sua experiência de si mesmo. Mas sabemos que solidão representa um polo da vida humana e que necessita para completar-se o polo da comunhão. O poeta tcheco Rilke afirmou que cada um de nós tem o dever de tornar-se um universo inteiro para depois entregar-se a um outro como dom. As nossas constituições trapistas comunicam esta mesma intuição quando dizem que nossa vivência monástica exige tanto uma grande capacidade para solidão como para vida comunitária. E o nosso abade geral atual gosta de chamar-nos de “cenobitas no deserto”. Moramos no deserto monástico,sim, na separação geográfica da cidade e na privacidade de nosso coração. Mas vivemos juntos, e isto é essencial à nossa vocação monástica e humana.

O jovem brasileiro – e nisto ele é muito parecido com seus primos, os jovens do mundo inteiro, embora com uns toques particulares- encontra muito rapidamente dificuldades sérias neste caminho de comunhão. É quase certo que, provindo da cultura global, ele morava num ambiente precocemente sexualizado, e absorvia os valores desta cultura. Aqueles que se apresentam à porta do mosteiro como vocacionados raramente falam da experiência de uma longa e profunda amizade. Pulam, durante a entrevista, da família de origem para o primeiro namoro. Este pulo significa mais do que um lapso de memória. Ao contrário, deixa-ver acertadamente um buraco importante em seu desenvolvimento. Ficou roubado, muitas vezes, da experiência de um compromisso afetivo, mas não fundamentalmente sexual,a aliança da amizade, onde realidades como idealismo, admiração, e generosidade costumam despertar e florescer. Desde Homero na literatura grega e a primeira monarquia no Antigo Testamento a amizade é visualizado como um dos aspectos mais preciosos da aventura humana, onde tranquilidade e paixão, sacrifício e realização, diferença e identidade brincam produtivamente entre si. Sei que nos lares brasileiros muitas destas qualidades acima mencionadas exprimem-se num contexto familiar, e também que o namoro/noivado/casamento constitui um dos mais férteis campos imagináveis para o amadurecimento do ser humano. Mesmo assim, muitas vezes perde-se o momento entre lar e casamento, um momento que é mais do que um corredor, um momento que deve representar uma graça particular estável, uma forma vitalícia da intimidade humana.

Então, os nossos jovens entram no mosteiro. Quer dizer, para nós velhos, depois de muita transformação, é um mosteiro . Para eles, sobretudo quando entram sem esta experiência profunda de amizades (amizades particulares e grupos de amigos), a realidade é outra. Automaticamente, o mosteiro assume a tonalidade- a cara- de um time ou de uma sala de aula ou de uma vizinhança ou de um escritório/fábrica ou de um curso pré-vestibular, ou simplesmente da rua. Assim criamos todos nós o nosso mundo. Portanto, espontaneamente os jovens pegam na pasta de atitudes e práticas conhecidas. Por exemplo:

1) Desconfiança: O jovem vive com medo de chamar atenção, acreditando que mais cedo mais tarde, atenção fatalmente vira zombaria. Se ele faz muito bem, está (desculpe o meu francês) “puxando saco”; se ele fracassa, ele era um vaidoso, um idiota, por ter tentado aquilo que não tinha condições de realizar. Além de abafar sua criatividade- melhor ficar cabisbaixo e sumir no rebanho- esta desconfiança generalizada facilmente leva a um sentimento de hostilidade, tanto de sentir hostilidade quanto de sentir-se hostilizado. Quando isto acontece (e ainda não vi uma exceção), surge a tentativa de

2) Evasão: Tira o fôlego testemunhar com que rapidez os jovens podem apagar-se mutuamente do livro da vida: “Ele não presta”. Perdoam uma, duas, até três vezes, e depois (estou falando ironicamente) “criam juízo”. Descobrem que este sujeito é perigoso, agressivo, mal educado, racista, etc. Nestas condições, pensam eles, o comportamento mais acertado é criar uma boa distância afetiva. Você fique em seu canto do mosteiro e eu fico no meu. Só que isto não pode dar certo. O mosteiro é pequeno demais, os encontros constantes demais para permitir uma boa guerra fria. Mais uma vez a sabedoria da cidade revela-se como penosamente inadequada no contexto monástico. Espiritualmente, a tática de evasão representa um contra-valor inaceitável numa sociedade de comunhão, como o mosteiro pretende ser. E depois, é um crime sem lucro. Busco com grande empenho colocar um espaço suficiente entre mim mesmo e aquele que eu chamo (com ênfase significativa) “Meu irmão”, mas ele continua vivendo no mosteiro e até ocupa alguns andares na casa da minha cabeça. Paciência! Donde vem esta tendência para desconfiança-hostilidade-evasão? Ao meu ver, em grande parte vem de

3) Treinamento insuficiente das emoções. Um fenômeno espantoso, que manifesta-se hoje em dia como a norma, é a incapacidade de processar frustrações. Os nossos antepassados aceitavam com relativa calma que a vida é frustrante, que todo dia vai trazer sua pitada da contradição e que o ser humano mostra o seu estado de adulto superando as frustrações, incorporando-as em sua experiência e assim tornando-se mais livre das circunstâncias e mais aberto a elas. Os herdeiros de nossos antepassados (quer dizer, nós) em vez que contemplarmos as frustrações cotidianas da vida como um elemento normal, se não enriquecedor, as consideram como um insulto insuportável. Um golpe! Um baque! Uma facada! Cito estas três exclamações que ouço todo dia (tem outras) para indicar uma resposta às pequenas irritações que já bem enraizou-se em nossa cultura. Aqui no Brasil vejo entre os jovens uma oscilação preocupante entre ira e tristeza, como reações a estas provocações diárias,e frequentemente reações desproporcionais. Parece-me que entre as duas respostas aquela que mais predomina é a tristeza, e eu gosto de brincar com minha comunidade que a frase que eu mais escuto é (em voz chorosa): ” É difícil”. ( Alias, para consolá-los digo que se o brasileiro é mais suscetível ao vicio de tristeza, o americano cai mais facilmente na armadilha de soberba. Por alguma razão, esta afirmação normalmente traz alívio.)

O que é a tarefa do pai espiritual,
imitador de Jesus,
neste ninho de vespas?

Me parece que ele tem que constituir um contrapeso a estas tendências, ou melhor, fazer exorcismo destes demônios. Não há dúvida : tal desconfiança, hostilidade, evasão, impaciência, irritação, melancolia vão além de ser sintomas do estresse do mundo pós-moderno. Surgem de uma experiência deturpada do próximo e do ambiente interpessoal, uma experiência que estimula os hormônios de superficialidade, esperteza e excessiva prudência e que impedem o florescimento de um clima de repouso e certeza, onde gestos como o sorriso, o aperto da mão, o abraço da paz na missa, o pedido de perdão são mini-sacramentos, isentos de uma interpretação ambígua. São Máximo Confessor, monge e teólogo do século sétimo, ensinava que os homens são capazes de negligência; quando manifestam hostilidade e condenação, é um sinal seguro da atuação do Maligno.

O pai espiritual responde a estas forças malignas por sua recusa de entrar em diálogo com elas. Na presença daqueles sentimentos que acabei de citar, e que certamente o convidam de “entrar na onda” – convite cuja força ele mesmo sente por causa da persistência das consequências do pecado- ele vai agir contra a mentira. A gente pense nos manifestos de Jesus no Sermão da Montanha, de São Francisco de Assis em sua celebrada oração (“Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz”), de Tolstói e de Gandhi, e a gente vê que a “violência” de insistir em ver a presença divina no outro, acreditar nele e perseverar em fazer-lhe o bem é muito mais poderosa do que a nuvem de poeira criada por nossos medos e agressividades. Tanto quando o mestre encontra-se como alvo da desconfiança/agressão quanto ele testemunha uma situação negativa entre outros irmãos , ele vai buscar rasgar o véu da mentira . Seu método não consiste em desmascarar a projeção (“Você está vendo tal coisa deste jeito por causa do negativismo você traz em si mesmo”), nem em moralizar, mas em fazer visível de novo o verdadeiro rosto espiritual dos brigados.

Nisso, ele vai encontrar uma grande ajuda no uso abundante e benevolente do humor. A maior bênção do humor é precisamente apontar numa maneira aceitável para o exagero, a dureza, a amargura, a autopiedade- em breve, para o venenoso numa determinada tomada de atitude. O humor contemplativo identifica-se com o irmão irracional (“Veja como nós dois podemos agir como loucos, quando queremos”), e o chama de volta para a razão e a paz. O humor contemplativo admite que o irmão irritado tem razão, pelo menos em parte, mas coloca a pergunta: O que você- o que nós- vamos ganhar se você continuar resmungando; o que você – o que nós – poderíamos ganhar se você parasse de resmungar e começasse a cantar de novo com a gente? O humor contemplativo aproveita do direito de cutucar (um dos meus apelidos na comunidade é “o grande cutucador”)sem magoar. Diz-se que o que o diabo mais teme é ser ridicularizado; quando o pai espiritual consegue mostrar a bobagem no comportamento do irmão por uma cutucada que dá em cheio, o demônio foge e o irmão retorna a ser ele mesmo. Assim como disse que quando trata-se da apropriação de uma história dolorosa por parte de um noviço o mestre tem que saber chorar e calar-se, quando o assunto é a purificação da comunidade das tendências belicosas e afastadoras, o mestre tem que rir e fazer o outro rir. Isto já é conversão, quando a dificuldade reside em vaidade e hiper-sensibilidade. Várias parábolas de Jesus pretendem levar pessoas do mundo fechado deles para o reino de Deus justamente por meio de uma gargalhada.

VI. O Compromisso

Alguns anos atrás, um professor de sociologia deu um curso para os professos trienais trapistas norte americanos. Ao ouvir a pergunta, se haveria um fator que mais dificultava a formação monástica hoje em dia, respondeu imediatamente, “Sem dúvida. A impossibilidade do jovem comprometer-se.” Provavelmente, esta resposta não nos surpreende, porque o fenômeno da instabilidade é mundial em suas dimensões, mas não deve faltar de deixar-nos assustados. Apesar da afirmação recente de um presidente de uma faculdade “Ivy League”, Yale, “Vemos agora que uma vida bem sucedida não é uma linha reta, mas uma série fecunda de zigue-zagues”, não podemos perder a consciência que compromisso é a grande condição para comunhão, para maturidade, para verdadeiro bem estar, e finalmente, para a manutenção do contrato social, isto é, para a continuação da sociedade. Foi Kierkegaard que asseverou, no título de um de seus livros, “Pureza de coração significa desejar uma coisa só”; foi Jung que insistiu que as tarefas mais profundas da vida só podem ser cumpridas por aqueles que permanecem fielmente num único propósito.

O grande bloqueio surge de uma ignorância e uma impotência. A ignorância consiste em não saber que a nossa identidade é necessariamente social. Ninguém entra na gruta de tesouros do seu próprio ser a não ser por uma interação estável com uma comunidade. Identidade depende da identificação. Aquele que borboleteia na sua vida acaba sendo apenas um punhado de pó colorido. A impotência consiste em não poder assumir o trabalho sacrificante de tornar-se peça viva e vivificante de um organismo meta-individual, de morrer à uma identidade independente e ressurgir como parte de um ou outro corpo místico (no fim das contas, qualquer família, qualquer verdadeira comunidade é também um corpo místico). Lembra-se da citação de Rilke: Primeiro a gente tem que crescer para ser um universo para depois dar-se a um outro. Aqui estamos tratando deste segundo momento,do dom mútuo dos universos. Igualmente São Bento ensina que o monge que pretende unir-se com Deus e consigo mesmo vai chegar ao seu objetivo somente mergulhando-se, ativa e afetivamente, na comunidade, suas tradições e mais ainda, com seu pessoal.

Isto traz à tona um desafio particular do compromisso monástico. O que o monge deseja acima de tudo é unir-se com Deus. Neste caso, não há ignorância nenhuma que a sua própria autorrealização depende de uma sintonia progressiva com Deus, uma “união de Espírito” com Deus, para empregar o termo clássico. Por outro lado, a dificuldade de abrir-se à irrupção da vida divina em sua vida é enorme, é literalmente espantosa . Uma ativa receptividade às “mexidas”de um Deus invísivel, transcendente e não sempre delicado constitui a grande aventura e o grande sofrimento da vocação contemplativa. De fato, esta irrupção de Deus na vida da gente forma o drama inteiro da nossa vivência. A luta para conhecimento de si mesmo, para desenvolvimento do intelecto, para a superação das paixões nas interações comunitárias- todas estas realidades são reflexos da grande iniciativa de Deus de formar uma só coisa com um pobre mortal. É a sombra jogada por sua aproximação que põe em movimento todos estes processos.

A grande tentação do jovem monge é de dissociar os elementos desta atividade única: o unir-se de Deus com sua criação. O jovem quase morre de medo e de dor, sentindo os dedos de Deus nele, dedos que segundo João da Cruz são perfeitamente capazes de queimar e não somente acariciar. O jovem sente que uma fresta- qual!- um abismo está abrindo-se nele para deixar o Todo Poderoso (bom, ruim?) entrar e não sabe se vai aguentar, tem quase certeza que não. Portanto, ele quer negar a necessidade de viver estes dois processos simultaneamente. Para unir-se a Deus, pensa ele, não deve ser indispensável passar por tudo isto com os irmãos. Ele vem a perceber que a comunidade é impiedosa, que ela insiste em mantê-lo no centro da arena, e também que em vez de suavizar o sofrimento vertical místico acrescenta o sofrimento horizontal, através de transtornos, friezas, grosserias. Quando damos conta da fragilidade dos jovens, vemos o tamanho de heroísmo pedido por nossa vida simples e repetitiva. E percebemos que a perseverança na fé, esperança e caridade é um milagre.

Se o pai espiritual pode ajudar aqui? Certamente por meio da oração, porque o mistério fica essencialmente entre Deus e o jovem. Rezando igualmente para si mesmo, para não forçar a liberdade do jovem ( e assim prejudicá-la permanentemente), mas ao mesmo tempo para não deixar esta liberdade do jovem sem as dicas que ela necessita.Além disso, há duas formas de ajuda que o pai pode prestar. Cada vez que ele percebe a mão do Senhor tocar num de seus irmãos para prová-lo, ele deve viver seu próprio compromisso com uma pureza e fidelidade intensificada. Se o assunto é de identificação, ele em primeiro lugar tem que identificar-se com o provado, o purificado, em oração assídua e em oferta de si mesmo. Ficar com ele, à medida que isto é possível, entrar livremente em comunhão com este irmão em tudo o que este sofre, como prece silenciosa que o irmão chegue àquela comunhão profunda com Deus e com a comunidade que o impelia a entrar no mosteiro.

A segunda forma de ajuda é de abrir seu coração, revelar seus segredos. Tem muita coisa hiper pessoal na vida monástica- toda a história de intimidade e dor entre Deus e a gente- que nunca deve ser falada. (Foi São Bernardo que gostava de repetir, “O meu segredo é meu”).

A grande exceção se encontra nestes tempos de provação do discípulo. Nestes momentos, o mestre pode falar do mistério que ninguém conhece, este mistério que pode exercer um poder divino por ser o mais precioso, quase o único bem precioso que ele possui. É o vaso de bálsamo que ele quebra e jorra sobre seu discípulo para ungi-lo em sua hora. Assim como Jesus fez do fim do seu ministério um desvelar-se absoluto: “Agora eu posso chamar-vos de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer”(Jo. 15: 15).

VII. Conclusão

“Primeiro foi feito não o que é espiritual, mas o que é psíquico; o que é espiritual vem depois.” Assim fala São Paulo na sua primeira carta aos Coríntios (15:46). Nos últimos anos fala-se muito entre formadores sobre a necessidade de uma forte base humana como pré- requisito para uma vocação religiosa. Onde falta a maturidade afetiva, diz-se, falta a esperança para o desenvolvimento saudável do vocacionado. Estou totalmente convicto da importância de tais elementos humanos no processo de crescimento e transformação dos jovens; por isso decidi tratar os temas que consideramos nesta palestra em vez de refletir sobre jejum, vigílias e salmodia. Mas quando estas condições prévias não existem, e esta privação não se refere a um ou dois casos mas a quase todos, se não a todos, então como proceder? A gente pode fechar a loja (“close shop”), ou a gente pode rever o projeto e dizer com São Paulo, “Primeiro o psíquico e depois o espiritual”. Mas não o psíquico como missão cumprida antes da entrada no mosteiro; antes os dois feitos juntos no mosteiro . Será que este representa um projeto realista?

Como vocês já percebem, minha posição é que tal processo duplo é possível, mas somente quando o monge formador ( o superior, o mestre dos noviços) identifica-se mais com o modelo de formação de Jesus do que aquele de João Batista. Como sempre, o mistério chave é a Encarnação : a descida alegre e amorosa ao nível do outro para estar com ele lá, e de lá , pela força quieta da autodoação, fazer o outro subir. Recentemente, num encontro de um pequeno grupo dos superiores reunidos para estabelecer a agenda para nosso próximo Capítulo Geral, uma abadessa me perguntou, “E então? Como vai a batalha?” “Madre”, respondi, “às vezes quando olho para os meus monges, não os acho onde esperava encontrá-los, mas num ponto mais baixo, mais necessitado.” “E o que faz?” “Eu vou lá onde eles estão, e começo lá de novo. Agora, eu sei que isto vai acontecer muitas vezes. Mas não importa. O que importa é ir para onde eles estão e começar de novo. Um dia vamos todos chegar juntos no fundo do poço, e depois vamos subindo.” “Pois é”, disse ela. “Se eu não pensasse assim , não haveria monjas.”

Quando São Bernardo busca a imagem certa para a Encarnação e sua necessidade, ele a descobre na história do profeta Eliseu e o menino. Eliseu tinha feito a bobagem de prometer um filho a um casal estéril. A senhora não quis, não acreditou muito, talvez pressentisse dificuldades futuras. O profeta insistiu. No ano seguinte nasceu um menino e por doze anos tudo ia bem. Um dia o menino trabalhando com seu pai na lavoura queixou-se de enxaqueca. O pai o levou para a casa mas o menino morreu ainda nos seus braços. Desesperada, a mãe mandou chamar o profeta que em vez de comparecer imediatamente enviou seu servo junto com seu cajado profético para tocar no menino. Isto não produziu efeito algum. Agora, enfurecida, a mãe quase voa no caminho para a casa do profeta, com o pensamento, “Este menino foi ideia sua.”Eliseu já estava no caminho para a casa do casal. Chegando lá, ele sobe para o quarto onde o menino jazia e fecha a porta. À sós com a criança morta, ele deita-se em cima do cadáver, suas mãos sobre as mãos dele, seus pés sobre os pés dele, seus olhos sobre os olhos dele, sua boca sobre a boca dele, como o livro dos reis conta em grande detalhe. ” Então”, como diz a Bíblia com o toque mais caseiro imaginável, “o menino espirrou, e abriu seus olhos”. E o profeta o devolveu a sua mãe. Assim agiu Jesus com a humanidade necessitada, diz São Bernardo, “encolhendo-se e adaptando-se à nossa pequenez”. Assim tem que agir o mestre com os jovens que Deus manda para sua comunidade. Se não, por que chamá-lo de “pai espiritual”?

D. Bernardo Bonowitz, abade

Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo

 

1 Comentário para “Tornar-se monge na sociedade secular de hoje”

  1. Amalia Ruth Borges Schmidt disse:

    Este texto de Dom Bernardo Bonowitz, OCSO: “Tornar-se monge na sociedade secular de hoje” deveria se tornar leitura essencial para educadores em ambientes religiosos, para formadores em instituições de ensino, bem como para pais de família em busca de cursos que os ajudem na educação de seus filhos. Na verdade é um compêndio precioso de re-educação para todos os educadores. Nós “mertonianos”, cada um com atividade diferente em seus ambientes, temos muito o que aprender com os ensinamentos do mestre Dom Bernardo Bonowitz e posteriormente refletindo, com nossa vivência, transmitirmos para os irmãos. Obrigada Dom Bernardo!

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