Blog › 01/01/2018

Homilia | Maria, Mãe de Deus

É bom esperar em silêncio...

Há um versículo no capítulo 16 do Evangelho de São João que, surpreendentemente, resume a biografia espiritual de Nossa Senhora: “Naquele dia não me colocareis mais pergunta alguma” (16,23).

A jovem Maria era uma pessoa bastante questionadora. A primeira vez que nós nos encontramos com ela, no primeiro capítulo do evangelho de São Lucas, na Anunciação, a sua pergunta é “Como?” “Como pode isto acontecer, sendo que não conheço homem algum?” Ela não entende como Deus pretende realizar seu desígnio e então pergunta.

Já no segundo capítulo de Lucas, ela coloca uma segunda pergunta: “Porque nos trataste desta maneira?” (Não sei se vocês aprendem na escola que um bom repórter ou pesquisador deve colocar seis perguntas: onde, o que, porque, quando, quem, como).

De novo, ele não consegue compreender porque um bom filho deixaria seus pais passaram pela angústia da ausência inesperada do seu filho. E não compreendendo, pergunta.

No segundo capítulo de Marcos, chegam boatos a Maria de que Jesus, agora adulto, está agindo de uma maneira doentia (Os judeus diriam, de uma maneira “goyishe”- não judia). Ela junta seus familiares e todos vão atrás de Jesus, querendo levá-lo para casa. Esta vez a pergunta não é verbalizada, mas, mesmo assim, a gente a escuta, pairando no ar, no ambiente de tensão: “O que está fazendo?” Novamente, Maria não compreende, e portanto, pergunta.

Mas depois deste evento, algo muda em Maria. Não que sua vida com Deus e seu filho se torna mais tranquila ou mais clara. Ao contrário. Quando ela viaja uma segunda vez junto com os outros parentes de Jesus para conversar com ele e pede que ele saia da casa onde está para trocar algumas palavras com ela, ele responde com a frase famosa sobre seus verdadeiros irmãos, irmãs e mães. Esta vez, ela guarda o silêncio. Quando ela pede dele a gentileza de ajudar o jovem casal de noivos em Caná e ele lhe mostra “o lado áspero de sua língua” (como se diz em inglês), ela não responde com uma pergunta, mas simplesmente orienta os servos a obedecerem a qualquer ordem que Jesus pudesse dar. No Calvário, quando o próprio Jesus coloca a maior pergunta de todos os tempos, “Meu Deus, porque me abandonaste?”, Maria permanece silenciosa. Ela fica de pé debaixo da cruz, durante todas as horas da crucifixão, sem proferir a mínima pergunta.

O que aconteceu? Será que Maria cresceu tanto em sabedoria que ela conseguia compreender desde um determinado momento tudo o que Jesus fazia e sofria? Com certeza, não. Jesus se tornava cada vez mais misterioso para ela e o fim da vida dele tão incompreensível para ela como o destino de Jó. Então, porque não continuou em seu comportamento habitual? Se não entendo, pergunto: Ignorantia quaerens intellectum.

A resposta é: Sim, Maria cresceu em sabedoria. Mas não a sabedoria de poder compreender tudo, mas antes, a sabedoria de não precisar compreender tudo, de reconhecer que com Deus a gente nunca compreende tudo, e que, de uma certa maneira, não cabe a nós submeter Jesus ou seu Pai aos nossos questionamentos. Lembremo-nos do arrependimento do supracitado Jó: “‘Escuta-me’, eu disse, ‘e vou falar. Vou perguntar-te e tu responderás!’…Mas agora, acuso-me a mim mesmo (não mais a Deus), e me arrependo no pó e na cinza.’” (42,4 e 6). Quando era noviço e passava por um trecho difícil, fui falar com o abade. Queixava me de Deus e sua maneira incompreensível de agir e repetia várias vezes (já em antecipação da minha vinda para Brasil: sabem que vocês frequentemente dizem a mesma coisa duas ou três vezes? Enorme, enorme, enorme): “Eu não entendo por que, eu não entendo porque”. O abade simplesmente respondeu: “Bernardo, tente não perguntar, ‘Porque ?’” “Try not to ask why”.

“Naquele dia não me colocareis mais pergunta alguma.” É bonito, o que diz Santo Anselmo: Fides quaerens intellectum: A fé buscando a compreensão. É mais bonita ainda a fé que não busca a compreensão- a fé que crê e espera a salvação do Senhor. Em algum momento, Maria aprendeu que tudo estava seguro nas mãos de Deus, e que ela não precisava compreender antes de se entregar. Se Maria, maior entre as filhas dos homens, tinha que passar por um aprendizado para conseguir esta sabedoria, não devemos envergonhar-nos ao constatar que esta forma de confiança vai demorar para estabelecer-se firmemente em nossa vida. Então, paciência. Não tem pressa. Maria não nos cobra; ela nos orienta. Com sua meditação silenciosa no evangelho de hoje ela nos aponta o caminho: “É bom esperar em silêncio (interior e exterior) a salvação do Senhor” (Lam. 3,26).

DOM BERNARDO BONOWITZ, OCSO
Abade do Mosteiro Trapista de Nossa Senhora do Novo Mundo
Campo do Tenente/PR, 1º de janeiro de 2018

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.